Melhorando o ensino de matemática com a Khan Academy: lições de um estudo controlado em Uttar Pradesh, Índia

fundo verde com uma criança indiana ao centro contando com os dedos. um retagulo amarelo está atrás dela, com fórmulas matemáticas em volta

Por Deepak Agarwal, Principal Scientist, Khan Academy Índia.

A Índia avançou muito no acesso à educação, mas o desempenho escolar, principalmente em matemática, ainda é um gargalo. A progressão sem o domínio de conhecimentos essenciais cria lacunas que crescem a cada ano.

Embora a tecnologia educacional (EdTech) apareça como uma solução promissora, a prática global indica que o sucesso depende do modelo de uso. 

Uma pesquisa de alto rigor científico de ensaio controlado aleatorizado coordenada por Philip Oreopoulos, da Universidade de Toronto, comprova: quando a Khan Academy é usada da maneira correta, o ganho de aprendizagem é muito superior em comparação a alunos que não utilizam a plataforma.

O que é um Ensaio Controlado Aleatorizado (RCT)?

Um ensaio controlado aleatorizado é a maneira mais rigorosa de responder à pergunta fundamental: este programa causou um aumento na aprendizagem dos alunos ou a mesma coisa teria acontecido de qualquer maneira?

Imagine que você queira testar se um novo programa de matemática faz os alunos aprenderem mais. Você seleciona um grupo de escolas amplamente semelhantes — mesmas séries, contextos similares, mesmo currículo — e, então, designa aleatoriamente algumas escolas para implementar o programa. 

Essas escolas são chamadas de escolas de “Tratamento”. Outras escolas continuam com suas atividades normais e são chamadas de escolas de “Controle”. 

O programa é implementado nas escolas de Tratamento durante o ano letivo e dentro da grade horária escolar. Se, ao final do programa, em média, os alunos das escolas de Tratamento superarem os das escolas de Controle, a diferença pode ser atribuída ao programa.

A intervenção: Uso regular da Khan Academy para prática de matemática, com apoio de instrutores de laboratório 

Em parceria com o Departamento de Bem-Estar Social de Uttar Pradesh, Índia, a Khan Academy foi implementada em 74 escolas residenciais para alunos do 6º ao 8º ano. 

“A Khan Academy foi utilizada como ferramenta complementar de apoio à prática, não como uma substituta da instrução do professor em sala de aula.” 

Duas vezes por semana, no laboratório de informática, recomendou-se que professores e alunos utilizassem a Khan Academy para práticas alinhadas às lições e remediação, usando exercícios e vídeos condizentes com o currículo.

Os alunos utilizaram dispositivos individuais (computadores ou tablets) para prática independente online, em horários designados na grade e sob supervisão do professor. Isso permitiu ritmo e progressão personalizados.

Das 74 escolas totais no estudo, 24 foram selecionadas aleatoriamente para compor o grupo de Tratamento, enquanto as 50 restantes formaram o grupo de Controle. 

“As escolas do grupo de Tratamento receberam suporte adicional de implementação na forma de facilitadores não instrucionais que as visitavam duas vezes por semana, referidos neste estudo como ‘responsáveis pelo laboratório’.”

Suas responsabilidades eram garantir a realização de duas sessões semanais da Khan Academy, solucionar desafios técnicos e operacionais, monitorar dados de progresso dos alunos e colaborar com a liderança escolar para integrar a prática da Khan Academy na grade curricular obrigatória. 

As escolas de Controle tinham acesso à Khan Academy, mas o programa não foi promovido ativamente nelas durante o período de intervenção.

Ao longo de sete meses, o estudo incluiu aproximadamente 2.000 alunos na condição de Tratamento e 3.500 na de Controle. 

Os resultados de aprendizagem foram medidos através de avaliações de matemática iniciais e finais aplicadas a estudantes do 6º ao 8º ano. 

Uma agência de avaliação independente desenvolveu testes específicos por série, alinhados aos currículos CBSE e UP Board, aplicados em hindi.

Evidências claras de ganhos de aprendizagem 

Na prova de matemática ao fim do ano, os alunos do grupo de Tratamento tiveram um desempenho superior entre 0,44 e 0,47 desvios padrão em relação ao grupo de Controle. 

Para entender o impacto real: esse ganho equivale a tirar um aluno que estava exatamente na média (percentil 50) e levá-lo para os 33% melhores da turma (percentil 67 ou 68).

gráfico sobre ganhos de aprendizagem

Por que os alunos aprenderam mais? Porque eles praticaram mais 

Os alunos do grupo de Tratamento utilizaram a Khan Academy por uma média de aproximadamente 47 minutos por semana para praticar conteúdos de matemática que estavam estreitamente integrados ao currículo de sala de aula. 

Quando há um senso claro de responsabilidade, monitoramento e motivação para usar o programa, o uso aumenta. 

Muitas plataformas de tecnologia educacional não conseguem fazer com que os alunos alcancem níveis significativos de tempo de prática. 

Este estudo mostra um caminho para atingir esse objetivo.

Mais prática levou a mais aprendizado, mesmo 15 minutos por semana fizeram a diferença 

Durante o estudo, os alunos do grupo de Tratamento utilizaram a Khan Academy duas vezes por semana por uma média de 47 minutos, mas o tempo gasto não foi uniforme para todos. 

Alguns alunos usaram mais, enquanto outros usaram menos. Analisamos essa variação de tempo gasto por cada aluno e a correlacionamos com os ganhos de aprendizagem associados (veja a figura abaixo). 

Esta análise mostra que mesmo 15 minutos de uso semanal podem ajudar os alunos a fazer um progresso considerável. Além disso, os ganhos de aprendizagem são proporcionais ao tempo que os alunos passam praticando na plataforma. 

Em outras palavras: mais prática significa mais aprendizado.

gráfico sobre o tempo gasto na khan academy com os ganhos de aprendizagem

Resultados para todos: equidade no aprendizado

Um dos pontos mais positivos deste projeto é que a Khan Academy funcionou para todo mundo. 

Os ganhos não ficaram restritos a apenas alguns alunos; foram consistentes independentemente da série, do gênero ou do nível de conhecimento inicial do estudante. 

Isso prova que a plataforma é uma ferramenta inclusiva, capaz de ajudar tanto quem já domina a matéria quanto quem ainda está construindo a base.

gráfico sobre ganhos de aprendizagem comparando com anos escolares, gênero, e domínio do conhecimento

O que isso significa

“Este estudo controlado aleatoriamente prova que, quando há apoio na implementação, os estudantes conseguem alcançar o tempo de uso ideal e realizar avanços expressivos na aprendizagem.”

Ferramentas de aprendizagem digital podem entregar grandes avanços quando as escolas recebem apoio suficiente para utilizá-las de forma eficiente — mesmo em cenários reais desafiadores.

Quando estruturas bem planejadas são estabelecidas para garantir a prática regular e os desafios logísticos são resolvidos, cria-se um ambiente no qual o uso da tecnologia se traduz em melhoria no domínio de habilidades e, fundamentalmente, em aumento nas notas das avaliações. 

Em tal configuração, os alunos se engajam mais profundamente em seus estudos e aprendem de forma mais eficaz. A tecnologia torna-se um veículo para ativar os processos necessários para facilitar a aprendizagem profunda.

A Khan Academy viabilizou essa estratégia oferecendo exercícios focados no domínio e alinhados ao currículo, permitindo que cada aluno avançasse no seu próprio ritmo. Além disso, garantiu que professores e monitores tivessem total visibilidade do progresso da turma.

O segredo do sucesso foi a união de conteúdo no idioma local, rotina de prática e engajamento constante, transformando o simples acesso à tecnologia em aprendizado real.

Os resultados provam que ferramentas digitais, quando bem integradas ao planejamento escolar, geram ganhos altos e justos para todos.

Confira as conclusões do estudo no artigo do Dr. Oreopoulos disponível aqui.