
Por Sal Khan, Fundador e Diretor Executivo (CEO) da Khan Academy.
Estamos vendo cada vez mais escolas alcançarem o sucesso ao utilizar a tecnologia de forma consciente. Mas esse sucesso nunca se deve apenas à tecnologia.
Os professores e gestores merecem a maior parte do crédito. E, muitas vezes, essas escolas impulsionadas pela tecnologia contam com outras vantagens difíceis de replicar.
Isso não é apenas uma questão de dar o mérito a quem merece. Isso importa porque nosso verdadeiro objetivo é levar esses benefícios para salas de aula em todos os lugares, e não podemos fazer isso se desvalorizarem tudo o que precisa acontecer para que um sucesso notável seja alcançado.
Dar crédito excessivo à tecnologia cria expectativas que têm muito mais chances de terminar em fracasso do que em sucesso.
Escolas que alcançam o sucesso
Passei grande parte dos últimos 15 anos defendendo uma ideia simples: os estudantes podem aprender mais e mais rápido ao utilizar a tecnologia para dominar conceitos no seu próprio ritmo.
A intenção nunca foi substituir os professores ou o ensino, mas sim liberar tempo na sala de aula para uma interação humana mais ativa.
Com mais tempo, os professores podem conduzir diálogos socráticos mais profundos e centrados no ser humano, simulações em grupo e interações entre os próprios alunos.
“A intenção nunca foi substituir os professores ou o ensino, mas sim liberar tempo na sala de aula para uma interação humana mais
ativa.” — Sal Khan
Acreditei nessa ideia com tanta força que, há 13 anos, cofundei uma escola sem fins lucrativos estruturada em torno dela: a Khan Lab School. Anos mais tarde, ajudei a lançar a Khan World School, uma escola pública virtual e gratuita gerida em colaboração com a Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos. Em ambos os casos, os resultados foram extremamente sólidos.
Na Khan Lab School, não selecionamos alunos com base em QI ou notas de exames. Em vez disso, por meio da Khan Academy e de experiências práticas aprofundadas, impulsionamos uma aprendizagem personalizada e por domínio, mantendo altas expectativas sobre nossos estudantes.
Matemática, Ciências e Humanidades do ensino médio costumam ser dominadas até o final do 8º ano. Todos os nossos alunos realizam disciplinas de nível universitário no 9º ano.
A média no SAT (exame de admissão universitária norte-americano) da nossa turma de formandos mais recente foi de 1.520 pontos (percentil 99). Nosso lema é: “Todos são estudantes, todos são professores”.
Frequentemente, alunos dos anos finais lecionam disciplinas como Filosofia, Cálculo Multivariado ou Álgebra Linear — matérias que raramente são oferecidas na maioria das escolas e que costumam ser cursadas apenas no segundo ou terceiro ano da faculdade.
Além disso, nossos alunos também têm tempo para buscar seus próprios interesses. Um deles criou uma empresa de alojamentos para cobaias (porquinhos-da-índia). Em um ano, o negócio atingiu meio milhão de dólares em receita e foi destaque na CNBC. Outra estudante desenvolveu um curso avançado de matemática na Khan Academy que já foi utilizado por milhões de aprendizes no mundo todo.
Em 2024, um dos nossos alunos venceu a Olimpíada Internacional de Linguística.
Na Khan World School, que é gratuita para qualquer estudante no Arizona, a turma inaugural de cerca de 50 alunos do 9º ano registrou um crescimento médio na pontuação padronizada de 2,8 a 4,6 vezes o progresso anual típico em Matemática, mais de três vezes o crescimento habitual em Leitura e mais de cinco vezes em Linguagem, dependendo da janela de avaliação.
Steve Levitt, o economista da Universidade de Chicago por trás do livro Freakonomics, foi sincero sobre sua reação inicial a esses números: quando a escola os enviou pela primeira vez, ele presumiu que houvesse algum tipo de erro e afirmou que nunca tinha visto resultados como aqueles vindo de uma escola em 25 anos de pesquisas em educação.
Ele insistiu em obter os dados brutos por conta própria antes de acreditar. No fim, ficou convencido o suficiente para cofundar uma escola presencial de ensino médio no Arizona diretamente baseada no modelo da Khan World School.
Reconhecendo as ressalvas
Ajudei a criar essas escolas porque queria, em primeiro lugar, ver o que é possível quando construímos instituições baseadas nos princípios do uso consciente da tecnologia, da autonomia do estudante, da personalização e da aprendizagem ativa para, depois, compartilhar amplamente os aprendizados que obtemos.
Mas nós intencionalmente não colocamos essas escolas sob os holofotes como exemplos perfeitos do que pode ser feito em qualquer lugar apenas com a tecnologia.
Sim, elas utilizam intensamente a Khan Academy, mas isso ainda representa uma pequena fração da jornada escolar. A maior parte do dia é dedicada a discussões, leitura, escrita e realização de projetos.
A Khan Lab School fica no Vale do Silício, na Califórnia, e atrai alunos e famílias altamente engajadas. Tentamos manter os custos comparáveis aos das escolas públicas locais, mas a mensalidade ainda fica na casa dos 30 mil dólares para cobrir salários de professores de seis dígitos e altos custos imobiliários.
Devido à sua associação com a Khan Academy, já recebemos desde Malala a Mark Rober e Francis Ford Coppola como palestrantes convidados. Poucas escolas conseguem esse tipo de palestrante, e eu não quero fingir que isso é algo replicável.
“Nós intencionalmente não colocamos essas escolas sob os holofotes como exemplos perfeitos do que pode ser feito em qualquer lugar apenas com a tecnologia.” — Sal Khan
A Khan World School na Universidade Estadual do Arizona é muito mais acessível: é gratuita para qualquer residente do Arizona e custa US$ 10.000 por ano para quem mora fora do estado.
Ainda assim, famílias e estudantes se autoselecionam para o programa, e tendemos a atrair alunos que se sentem pouco estimulados academicamente nas escolas tradicionais.
Por mais que a tecnologia da Khan Academy tenha desempenhado um papel importante aqui, o mesmo ocorreu com os diálogos socráticos conduzidos por professores, o grande volume de leitura feito pelos estudantes e as reuniões de acompanhamento no estilo de Oxford oferecidas pela escola.
Não consigo separar completamente o quanto dos nossos resultados vem do nosso modelo e o quanto vem das vantagens de recursos e do processo de autoseleção.
No entanto, não tenho conhecimento de nenhuma escola — mesmo instituições privadas que cobram mais de US$ 60.000 por ano, com recursos consolidados, autosseleção e filtros de admissão — que apresente esses níveis de ganhos acadêmicos.
E isso sem contar outros benefícios, como os alunos terem tempo e liberdade para buscar suas paixões. De forma anedótica, parece que os estudantes das nossas escolas se sentem mais motivados intrinsecamente e menos estressados do que seus pares nas escolas ao redor.
É por isso que estamos vendo um aumento na demanda pelo acesso à Khan Lab School e à Khan World School, e estamos pensando cuidadosamente em como expandir esses modelos.
Resultados em uma grande rede de ensino público
Dito isso, consigo entender por que as pessoas ainda se manteriam céticas quanto aos resultados fora da curva nessas escolas.
É exatamente por isso que nossos resultados nas Escolas Públicas de Newark importam. A rede pública de Newark, em Nova Jersey – EUA, é uma rede de ensino escolar grande e complexo no qual observamos avanços nos exames estaduais de Matemática três vezes superiores à média do estado.
Eles alcançaram isso sem nenhuma das vantagens de auto seleção ou de recursos fora do comum. Existem observadores de edtech que às vezes citam o “problema dos 5%”, referindo-se a casos em que apenas uma pequena minoria de estudantes se engaja o suficiente com a tecnologia para obter algum benefício.
No entanto, nas escolas da região norte de Newark (North Ward), estamos vendo quase 70% dos alunos engajados profundamente — e algumas escolas apresentam uma porcentagem ainda maior do que essa.
Portanto, a diferença entre 5% e 70% reside no nível de intencionalidade e comprometimento dos líderes escolares na implementação, e não em uma variação média na tecnologia subjacente ou nos estudantes.
Talvez a prova mais convincente de que a tecnologia pode acelerar dramaticamente os resultados quando bem apoiada por humanos venha de um grande estudo aleatório independente envolvendo escolas públicas que atendem alunos de baixa renda em Uttar Pradesh, na Índia.
Nesse estudo, as escolas que tinham acesso apenas à Khan Academy registraram tempos médios de prática de poucos minutos por semana.
Já as escolas que contavam também com um profissional dedicado exclusivamente a garantir que a plataforma fosse bem utilizada viram os alunos praticarem mais de seis vezes mais.
Essas escolas também registraram ganhos em Matemática equivalentes a dois ou três anos de escolarização típica naquele contexto. O mesmo software. Em média, os mesmos alunos.
Esse é todo o argumento em miniatura: a tecnologia importa, mas apenas quando é implementada estrategicamente com o suporte adicional de professores e gestores.
“A tecnologia importa, mas apenas quando é implementada estrategicamente com o suporte adicional de professores e gestores.” — Sal Khan
As pessoas que fazem funcionar
O que é consistente em todos os cenários — Índia, Newark, Khan World School e Khan Lab School — é que os resultados não vieram apenas da tecnologia.
Eles vieram da tecnologia aliada a uma liderança excepcional, à formação continuada de professores e a escolhas curriculares disciplinadas mantidas ao longo dos anos.
Esse é o padrão que eu gostaria que qualquer pessoa internalizasse ao buscar acelerar a aprendizagem por meio da tecnologia. Isso é real.
Os resultados podem ser dramáticos. Mas não é a tecnologia fazendo isso sozinha. Alguns estudantes utilizam as ferramentas de forma totalmente independente e vão extraordinariamente longe.
Uma jovem no Afeganistão usou a Khan Academy como sua única escola quando o Talibã a impediu de estudar; hoje, ela está no segundo ano do ensino superior no MIT.
Um homem aprendeu matemática na Khan Academy enquanto esteve encarcerado por mais de uma década; após sua libertação, ele foi para a Universidade de Stanford.
Essas histórias são reais e valem a pena ser celebradas. No entanto, elas são a exceção, não o modelo sobre o qual devemos planejar.
Para a grande maioria dos estudantes, a tecnologia não foi aquilo que fez a diferença por si só.
A diferença vem de um líder escolar comprometido, de um professor apoiado por formações e empoderado para usá-la, e de um sistema construído com cuidado suficiente para que a tecnologia seja realmente usada da maneira como foi projetada para ser.
Se você der crédito demais à tecnologia, procurará a alavanca errada da próxima vez que tentar replicar um resultado. Se você der aos humanos o devido mérito, saberá exatamente o sistema que precisa ser construído — e o tamanho do trabalho necessário — para ajudar mais alunos a alcançar o sucesso.


